Categoria: Casa111

Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.
Impossível escrever um poema – uma linha que seja – de verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para digestão.

Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta
muito para atingirmos um nível razoável de
cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto.

Os homens não melhoram
e matam-se como percevejos.
Os percevejos heróicos renascem.
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

Desconfio que escrevi um poema.

Carlos Drummond de Andrade

Aos Jovens e Equipe do Acreditar,

 

Escrevo agora para deixar registrado um pouco de minha gratidão, meu aprendizado, e meu carinho por todo esse tempo que compartilhamos juntos. Eu agradeço a cada um de vocês por ter feito parte dessa fase da minha vida, que foi tão intensa. E ainda que eu não tenha um portfólio só para mim, guardarei com muito cuidado na minha memoria vários momentos que passamos juntos.

Engraçado porque só conseguimos enxergar o principal das coisas quando elas já estão terminando. Enquanto estamos envolto às necessidades do dia-a-dia não paramos para ver mais a fundo aquilo que estamos vivendo. Hoje eu consigo visualizar claramente que participei, junto a vocês, de um modo, ao meu ver, isso significa que a bagagem de todos vivenciaram esse processo está aumentando nossa bagagem, de modo que outros que não participaram do Acreditar também estão tratando de encher a sua. O que nos diferencia é que escolhemos mais cuidadosamente àquilo que cada um, nossa bagagem se torna mais múltipla e abrange maior área de conhecimento.

Sempre estudei em escolas públicas e gostava de ir para aula porque lá encontrava meus amigos. Não via a hora de terminar o colégio, por isso mesmo, não repeti nenhum ano. Mas a escola foi só isso. Hoje vejo que aprendi muitas coisas. Alguns professores despertaram em mim muita vontade de querer saber mais sobre as coisas, e eu queria muito entender porque as coisas estavam tão ruins, porque diacho havia tanta injustiça social. Havia um professor de História que conversava conosco no intervalo das aulas, sobre diversos assuntos, e nesses momentos juntava, mais alunos do que nas salas de aula. Tenho vontade de encontra-lo, para dizer que fiz História e que reflito até hoje em certas ideias que ele plantou lá atrás. Espero poder ter atuado aqui, de forma semelhante, com humildade e incentivando vocês a querer saber mais e mais sobre as coisas que nos acontecem.

Chegando à universidade percebi que saber como a sociedade havia se tornado tão injusta não adianta muito: era preciso fazer algo! Participei de vários movimentos sociais e viajei a vários lugares. Nesses lugares conheci gente de todo tipo, com as mais variadas formas de pensar, de falar, de sentir. Ficava maravilhada ao ver que o mundo era sempre muito maior do que imaginava. É incrível como uma única coisa pode ter tantos pontos de vista diferentes! Foi aí que encontrei a arte, que para mim, é o modo único como cada um vai tecendo sua vida. Comecei a fazer muitos cursos de arte e educação, e passei a frequentar museus e instituições culturais. Também eu achava antes esses espaços chatos e sem graça. Mais neles passei a encontrar um pouco de outros mundos, de outros lugares e tempos idos. Comecei a trabalhar com Educação nesses espaços, recebendo os visitantes, trocando ideia com eles. Eles também foram grandes responsáveis por boa parcela de minha bagagem, apesar de nem saberem disso!

Até que fui convidada a trabalhar no Centro Educativo Acreditar. Mais uma vez, constatei que o mundo é bem maior do que imaginava. Cidade Dutra Passou a ser minha segunda casa. A equipe sempre foi muito acolhedora e sempre me deu suporte para eu me fortalecer enquanto educadora, aprendi muito profissionalmente. De início, tinha receio dos jovens, pois a ideia geral que se faz deles é de que não querem nada com nada. Mas fui conhecendo-os aos poucos, um a um, e hoje posso garantir que os jovens, pelo menos aqueles que conheço, são extremamente interessados, estão sempre em busca  de algo, não param quietos. Ao ver as fotos dos primeiros meses do curso podemos visualizar várias transformações nos próprios nos jovens. E é nítido que cada um de vocês foi encontrando o sentindo de estar aqui.

Foi muito boa a caminhada, mas tenho que partir. Convidaram-me para fazer parte da equipe de formação de educadores da 30ª Bienal de Artes. Apesar de desejar muito concluir com vocês essa edição do Acreditar, terei que tomar outro rumo. No entanto, vou feliz, porque sinto que vocês ficarão muito bem, que as aprendizagens que tivemos continuarão se desenvolvendo e que novos caminhos se abrirão para cada um de vocês. Aproveitem o máximo que vocês puderem, não deixem as coisas passarem. A cada dia aprendemos algo novo. Cuidem desse espaço, porque ele é raro e especial. Cada proposta que é feita aqui tem um objetivo que se relaciona diretamente com o desenvolvimento pessoal de cada um. Não se deixem vencer pelo pessimismo e preguiça! Nós podemos ir muito além do que imaginamos.

 

Anita Limulja

São Paulo, 26 de fevereiro de 2012.

 

14/02/2017

Do final de Setembro 2016 até metade de Fevereiro 2017 eu fiz um estágio na Associação Bem Comum. Agora chegaram os últimos dias da minha estadia em São Paulo e por isso quero resumir como foi a experiência.

Até poucas semanas antes do estágio começar, eu nunca tinha ouvido falar da Bem Comum. O meu curso de “trabalho social transnacional”  (que vai na direção de serviço social com foco em contextos internacionais e de migração) na Frankfurt University of Applied Sciences na Alemanha  exige um estágio numa ONG fora da Europa. Já que eu tenho um certo vínculo pessoal com o Brasil, eu decidi que ia querer fazer o estágio aqui. Como eu me interesso bastante para a educação vivencial ao ar livre, eu entrei em contato com a Outward Bound Brasil que faz parte de uma das organizações mais conhecidas nesta área. O pessoal da Outward Bound disse que não poderia fazer o estágio com eles, porque eles não têm nenhum funcionário que vem da área de serviço social ou da pedagogia. Mas recomendaram a Bem Comum. Já era começo de Julho e eu quis começar o estágio em Setembro – o que significou muito pouco tempo para resolver tudo que precisava resolver. Sabendo quase nada sobre a Bem Comum, eu solicitei o meu visto, que é um processo meio complicado e demorado, e pouco depois já cheguei em São Paulo. Tive sorte de achar uma república bem perto da Bem Comum e assim o luxo de poder ir a pé ao trabalho. Quando eu cheguei pela primeira vez na Bem Comum, foi um alívio enorme: primeiro porque eu tinha achado o caminho sem me perder nesta cidade gigantesca, e segundo porque tudo mundo era bem simpático. E eu não estou escrevendo isso só porque os meus colegas vão ler – no meu relatório em alemão para a faculdade escrevi mesma coisa, mesmo que ninguém daqui vai entender.

Eu não tinha esperado muito antes de chegar aqui e mesmo assim foi tudo diferente que esperado. Eu tive muitas liberdades e podia escolher tudo que queria; ninguém me disse o que eu tinha que fazer. Eu usei esta liberdade para me envolver no máximo número possível de projetos. E surgiram coisas maravilhosas disso. Por exemplo, a participação no grupo de teatro que se formou para captar recursos para a Expedição Acordando Palavras. Quem tinha esperado que um dia eu fosse pular duma mala no meio da Avenida Paulista? Uma experiência incrível que nem todo estagiário faz.

Outro produto fantástico da minha estadia na Bem Comum foi a criação da adec – autonomia do eu criativo. Nunca tinha vivenciado uma liberdade tão grande no trabalho e um resultado tão bonito desta liberdade. O trabalho no time adec foi incrível e já existem vários planos de continuar o projeto numa cooperação brasileira-alemã.

Na Bem Comum eu aprendi que o lugar do trabalho pode ser uma segunda casa e que colegas e família nem são coisas tão diferentes. Nunca antes tinha acontecido comigo que na hora de ir embora do trabalho tudo mundo ficava ainda para fazer música juntos.  E isso é só um exemplo de muitos.

Tá bom, tenho que admitir que nem sempre foi fácil. Tive que aprender a lidar com um conceito de pontualidade levemente diferente do que eu conhecia…mas depois de alguns meses aconteceu que fui eu quem chegou atrasado nos encontros. Foi um pequeno sucesso de integração.

Outro desafio foi o comportamento diferente no trabalho. Na Alemanha – generalizando – as pessoas no trabalho estão muito focados nos objetivos e dão pouco espaço à interação com os colegas. No Brasil – ou pelo menos na Bem Comum – isso é bem diferente e as relações interpessoais são bem importantes. No começo eu tive que aprender que bater papo com os colegas não é tempo de trabalho gasto mas sim um elemento bem importante para transformar o lugar do trabalho num espaço amigável e agradável. De volta na Alemanha, eu vou ou sentir falta disso ou conseguir de introduzir um comportamento correspondente no meu emprego lá.

Agora chegaram os meus últimos dias aqui na Bem Comum. Isso me deixa um pouco triste, o tempo passou muito rápido e de repente este momento chegou. Mas olhando para trás, valeu muito a pena e foi um dos tempos mais legais na minha vida. Vim para fazer um estágio e acabei fazendo muitos amigos. O que me ajuda de não estar tão triste de ir embora é a ideia que a gente vai se ver de novo e que vai ter várias oportunidades de trabalhar juntos e se encontrar novamente no Brasil e na Alemanha. O meu corpo vai voltar para a Alemanha, mas a minha mente e o meu coração vão ficar com vocês.

Neste último sábado (26/11/2016) aconteceu o último Sarau Colaborativo da Casa111 de 2016. Sim, meus amigos, este foi o último sarau do ano, mas não fique triste. É com muito carinho e uma grande alegria no coração, que realizamos o fechamento desse ciclo.  voltaremos ano que vem com muita alegria, muitos poemas, musicas, representações teatrais e ótimas novidades.

O dia iniciou com o Bazar Beneficente Acordando Palavras, um belo projeto de troca transcultural de jovens de periferia no extremo sul de São Paulo, possibilitando o trabalho comunitário no Peru, caso queira saber melhor sobre o projeto acesse o link:  Campanha Benfeitoria

Logo às 16h tivemos a oficina de erros… Realizada por Priscila Curce, onde podemos em um bate-papo horizontal perceber o quanto o erro é importante no nossos caminhos de aprendizado.

Às 18h demos o início ao nosso momento mágico, em que compartilhamos nossos poemas, nossas musicas, nossos conteúdos autorais, além de autores celebres como Fernando Pessoa e Sérgio Vaz. Sobre diversos temas que vai de teor político ao amor.

Foi um ano de ótimas experiências. Conhecemos pessoas incríveis, artistas pra lá de talentosos!! Um acontecimento magnifico, foi ter pessoas escrevendo para declamarem em nosso sarau, nossa ideia sempre foi trabalhar e estimular novos multiplicadores em prol do Bem Comum.

E é um prazer enorme para nós, consegui realizar nosso sarau e ter esse retorno. Estamos mais que animados para os próximos, e aguardamos vocês em nossa casinha. Um grande abrabeijo em todos vocês.

Confira nosso vídeo de finalização desse processo no link abaixo:

Vídeo final Casa111 – YouTuber

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Boas festas de final de ano.

Equipe Casa111!